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Desempenho acadêmico e qualidade do relacionamento interpessoal de graduandos de enfermagem

academic performance and quality of interpersonal relationships in nursing students
  • * Jéssica Pereira Trentino
  • ** Ana Carolina Cavalheiro
  • *** Maria Júlia Paes da Silva
  • **** Ana Cláudia Puggina

ARTIGO ORIGINAL Declaramos não haver conflitos de interesse. Autor correspondente: Ana Claudia Puggina

RESUMO

Objetivo: avaliar se a percepção do desempenho acadêmico influencia a qualidade do relacionamento interpessoal dos graduandos de enfermagem. Método: Estudo descritivo quantitativo. Os participantes responderam um questionário sobre o desempenho acadêmico em três situações (auto avaliação, amigo com grau máximo de proximidade e as pessoas que não considera ser tão próximo) e o Inventário dos relacionamentos interpessoais – versão amigo. Resultados: A amostra foi de 26 alunos de enfermagem com média de idade de 23,1 anos (dp=±4,2). Os alunos referiram que costumam ter um relacionamento mais próximo de pessoas com o comportamento semelhante (n=22; 84,6%), avaliaram seu próprio desempenho acadêmico como bom (n=21; 80,8%) e avaliaram o desempenho acadêmico do seu melhor amigo como bom (n=16; 61,5%). O escore médio total das respostas dos participantes em relação ao Inventário dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo foi de 78,1 (dp=±9,03). Houve diferença estatisticamente significante na comparação da Dimensão Conflito com a variável proximidade mostrando mais conflitos nos relacionamentos interpessoais com pessoas semelhantes (p-valor=0,04). Conclusões: A percepção do próprio desempenho acadêmico e dos outros alunos de graduação em enfermagem parece interferir diretamente na escolha das amizades na sala de aula, pois a aproximação muitas vezes se dá pela semelhança; entretanto, o desempenho acadêmico não apareceu como um fator primordial na qualidade dos relacionamentos interpessoais.

Palavras-chave: Relações Interpessoais; Percepção Social; Estudantes de Enfermagem; Enfermagem.


ABSTRACT - Objective: To assess whether the perception of academic performance influences the quality of the interpersonal relationship of nursing students. Method: A quantitative descriptive study. The participants answered a questionnaire about their academic performance in three situations (self-evaluation, friend with maximum degree of closeness and people who do not consider being so close) and the Inventory of Interpersonal Relationships - version friend. Results: The sample was 26 nursing students with a mean age of 23.1 years (SD=±4.2). Students said they usually have a closer relationship of people with similar behavior (n=22, 84.6%) rated their own academic performance as good (n=21, 80.8%) and rated the academic performance his best friend as good (n=16, 61.5%). The total mean score of participants’ responses regarding the Inventory of Interpersonal Relationships - version friend was 78.1 (SD=±9.03). There was a statistically significant difference when comparing the Dimension Conflict with proximity variable showing more conflicts in interpersonal relationships with similar people (p-value = 0.04). Conclusions: Perceived academic performance, and the other graduate students in nursing seems to directly interfere in the choice of friendships in the classroom because the approach often gives the similarity; However, academic performance did not appear as a primary factor in the quality of interpersonal relationships.

Key words: Interpersonal Relations; Social Perception; Students, Nursing; Nursing.

INTRODUÇÃO

Interagir com outras pessoas é fundamental e inevitável em todos os contextos. O relacionamento interpessoal é caracterizado pela maneira como as pessoas interagem entre si, bem como percebem e agem perante a outra. Este está estreitamente relacionado com o autoconhecimento, pois quanto melhor uma pessoa se conhece, maior é sua habilidade de entender os outros, compreendendo que cada um possui características individuais que precisam ser respeitadas e valorizadas para que exista uma relação harmoniosa e efetiva1-2.

A capacidade de conhecer a si próprio e perceber o outro são fatores importantes nas relações, pois essas pessoas conseguem estabelecer relações interpessoais mais efetivas e duradouras. Quando a pessoa se conhece verdadeiramente, consegue entender qual seria a melhor maneira de estabelecer e manter relacionamentos saudáveis, reconhecendo o outro na sua complexidade. Cada indivíduo é único, repleto de particularidades, e essas diferenças são construídas ao longo da vida, pelas experiências vivenciadas por cada um, além da influência das pessoas e do ambiente que a cercam3.

Ninguém pode experimentar a mesma felicidade, sofrimento, angustia e saudades que o outro sente, porque as percepções são diferentes e o produto é único. Esta originalidade de cada um é o que dificulta a comunicação interpessoal e o esquema de relações associadas ao “conviver”, pois isso torna a comunicação subjetiva1.

A comunicação verbal (mensagem, conteúdo ou informação) é um fator importante e relativamente objetivo nas relações interpessoais, no entanto, pode-se afirmar que apenas a comunicação verbal não é suficiente, pois é na comunicação não verbal que os sentimentos e intenções estão implícitos. Uma comunicação sempre terá duas partes: o conteúdo propriamente dito que é a informação em si que será transmitida e o que o indivíduo sente naquele contexto e por aquelas pessoas2.

Para a enfermagem o trabalho em grupo é uma realidade vivenciada desde a graduação; por isso, é importante verificar a qualidade destas relações, garantindo estratégias positivas para atividades profissionais futuras no contexto de trabalho.

Grupos podem existir em diferentes instituições, mas as verdadeiras equipes são raras. Um grupo quando se empenha em alcançar objetivos comuns e claros pode ser considerado uma equipe. Nesta, os membros têm uma comunicação efetiva, elevada interdependência na execução das atividades, são estimulados a terem opiniões divergentes, no entanto, complementares e voltadas para o crescimento mutuo, o que possibilita o alcance de resultados. O grupo está constantemente investindo em seu próprio crescimento, há respeito e cooperação, mas as ações são normalmente variadas e aleatórias4.

Conflitos são inevitáveis dentro dos grupos, porém o modo como eles são enfrentados e resolvidos é o que resulta no crescimento e amadurecimento das pessoas. É importante entender que o conflito aparece quando os indivíduos não compartilham as mesmas ideias e não aceitam as ideias alheias, bem como, os comportamentos5-6.

Um fator de conflito entre os estudantes pode ser a exposição e a valorização do desempenho acadêmico. Normalmente as instituições costumam avaliar o desempenho de seus alunos por meio de notas que podem variar de zero a dez. Esta maneira de avaliação pode gerar competição entre os alunos.

A competição faz parte da formação de um grupo, existe em todos os âmbitos. Pode ser considerada saudável quando o indivíduo a usa para se destacar mais que o outro, mas de forma correta e ética. Em algumas ocasiões, a competição é planejada e incentivada como forma de melhorar a qualidade, crescimento e desenvolvimento dos grupos. Desta maneira, quando a competição declarada é realizada de forma honesta entre os envolvidos, pode ser considerada sadia e até mesmo eficaz4-5.

Podem surgir problemas de relacionamento quando a competição ocorre de maneira negativa, com estereótipos de superioridade e inferioridade. Quando adotada de maneira equivocada, a competição pode ter consequências incontornáveis entre os envolvidos e dificilmente estes conflitos serão resolvidos. O relacionamento interpessoal pode ser totalmente comprometido podendo atrapalhar o desenvolvimento do grupo4-5.

Em algumas instituições de ensino superior, melhores desempenhos acadêmicos proporcionam melhores oportunidades. Considerando estes preceitos é que surge a finalidade deste trabalho. Até que ponto o desempenho acadêmico interfere na qualidade das relações entre colegas de turma? Quais critérios e características são utilizadas nas aproximações entre os indivíduos no contexto acadêmico?

Objetivos

Avaliar se a percepção do desempenho acadêmico entre os alunos de graduação em enfermagem interfere na qualidade dos relacionamentos interpessoais deste grupo.

MÉTODO

Estudo original descritivo quantitativo tendo como variáveis dependentes a avaliação do desempenho acadêmico e a qualidade dos relacionamentos interpessoais, e como variáveis independentes idade, sexo, ano vigente da graduação, ter ou não dependência ou exame em disciplinas, proximidade com pessoas com comportamento semelhante ou diferente.

O estudo foi realizado em uma autarquia municipal de Jundiaí. A população do estudo de graduandos de enfermagem era de 30 alunos e a amostra obtida foi de 26 alunos. Os critérios de inclusão foram: (1) adultos de 18 a 60 anos e (2) graduandos de enfermagem da instituição no ano letivo de 2013.

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o número CAAE 16979813.6.0000.5412.

Foram utilizados na coleta de dados 3 instrumentos auto aplicáveis: instrumento de caracterização da amostra, instrumento de avaliação do desempenho e o Inventário dos Relacionamentos Interpessoais - versão amigo.

O instrumento de caracterização da amostra continha as seguintes variáveis: idade, sexo, ano vigente da graduação, dependência em alguma disciplina, exame em alguma disciplina, proximidade com pessoas com comportamento semelhante ou diferente.

No instrumento para avaliação do desempenho acadêmico, o participante avaliava-o em três situações (auto avaliação, amigo com grau máximo de proximidade e as pessoas que não considera ser tão próximo), considerando a seguinte variação: ótimo, bom, razoável ou ruim. Neste questionário o participante também deveria responder de maneira descritiva e livre quais características o fizeram ser ter mais proximidade com o colega e quais características o distanciam daqueles não ser tão próximos.

O Inventário dos Relacionamentos Interpessoais - versão amigo tem por finalidade avaliar a percepção do suporte, do conflito e da profundidade sentida pelo indivíduo em relação a um determinado apoiante, é composto por 24 itens distribuídos por 3 fatores: Suporte, Conflito e Profundidade. Os itens serão respondidos com uma escala tipo Likert com quatro pontos: (1) Nunca ou Nada, (2) Poucas vezes ou pouco, (3) Bastante vezes ou bastante, (4) Sempre ou Muito7.

Foram realizadas análise descritiva (média, desvio-padrão e mediana) e análise comparativa por meio de testes estatísticos. A probabilidade de erro adotada nos testes foi de p < 0,05 e o software utilizado para análise o SAS versão 9.2.

A avaliação da consistência interna do questionário foi mensurada por meio do coeficiente alpha de Cronbach. A avaliação dos domínios do questionário segundo as variáveis independentes foi realizada por meio dos testes de Mann-Whitney (quando avaliada em duas categorias) e Kruskal-Wallis (para avaliação em 3 ou mais categorias), pois os domínios não apresentaram distribuição normal (avaliação não apresentada, realizada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov).

Resultados

Para a amostra selecionada neste estudo, o coeficiente de consistência e validade interna do Inventário dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo apresentou uma confiabilidade moderada (0,640), ou seja, quando o Alfa de Cronbach está entre 0,60 a 0,758. O Alfa de Cronbach foi de 0,829 na dimensão Suporte, 0,858 na dimensão Conflito e 0,745 na dimensão Profundidade.

A amostra total foi de 26 alunos de enfermagem com média de idade de 23,1 anos (dp=±4,2), quantidade média de exames 2,9 (dp=±2,2), composta na maioria por mulheres (n=21; 80,8%), alunos sem dependência em disciplinas até o momento da coleta de dados (n=23; 88,5%), alunos com histórico de exames nas disciplinas cursadas (n=22; 84,6%). Os alunos cursavam predominantemente o 3° ano letivo (n=12; 46,2%), em seguida o 2° ano (n=10; 38,5%) e o 4° ano letivo do curso de enfermagem (n=4; 15,4%) (Tabela 1).

Em relação aos relacionamentos e proximidade, os alunos referiram que costumam ter um relacionamento mais próximo de pessoas com o comportamento semelhante (n=22; 84,6%), avaliaram seu próprio desempenho acadêmico como bom (n=21; 80,8%) e avaliaram o desempenho acadêmico do seu melhor amigo como bom (n=16; 61,5%).

Na avaliação do desempenho das pessoas com menos proximidade, não houve maioria, metade dos participantes avaliaram as pessoas com menos proximidade da sala de aula com bom desempenho (n=13; 50%), seguido por frequências mais baixas de avaliações como razoável (n=8; 30,8%), ótimo (n=4; 15,4%) e ruim (n=1; 3,8%) (Tabela 1).

Tabela 1 – Descrição das características da amostra estudada. Jundiaí, 2013.

O escore médio total das respostas dos participantes em relação ao Inventário dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo foi de 78,1 (dp=±9,03), acima da média aritmética do instrumento (24+96/2=60), apresentando uma boa percepção do suporte, conflito e profundidade em relação a um determinado colega de classe (Tabela 2).

Tabela 2 – Descrição das dimensões avaliadas e do escore total da amostra ao Inventário dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo. Jundiaí, 2013.

Em relação a análise descritiva das respostas dos participantes em relação ao Inventário dos Relacionamentos Interpessoais – versão amigo, pode-se observar na dimensão Suporte maiores frequências de respostas “sempre ou muito” nas questões 2 (n=18; 69,2%), 4 (n=19; 73,1%) e 17 (n=16; 61,5%) mostrando que sempre o participante pode contar com o amigo para o ajuda-lo a resolver algum problema, para lhe dar uma opinião honesta e ouvi-lo quando estiver bastante zangado com outra pessoa (Tabela 3).

Na dimensão Conflito houve predominância das respostas “nunca ou nada” nas questões 3 (n=17;65,4%), 22 (n=19;73,1%) e 23 (n=18;69,2%) mostrando que nunca o amigo os chateia, os faz sentir zangado e tenta controlar ou influenciar sua vida (Tabela 3).

Na dimensão Profundidade, as maiores frequências relativas foram apresentadas na resposta “sempre ou muito” na questão 10 (n=14;53,8%) e “poucas vezes ou pouco” na questão 16 (n=13;50%) mostrando que apesar do participante considerar este relacionamento com o amigo de sala muito importante, metade dos participantes relataram depender pouco desta relação (Tabela 3).


Comparando-se as características da amostra com as respostas dos participantes em cada uma das dimensões (Suporte, Conflito e Profundidade), encontrou-se diferença estatisticamente significante na Dimensão Conflito em relação a tendência do indivíduo se tornar mais próximo de pessoas com comportamentos semelhantes ou diferentes do seu (p-valor=0,04). O dado aponta mais conflitos nos relacionamentos interpessoais com pessoas semelhantes. Não houveram diferenças estatisticamente significativas na comparação entre as características da amostra e as dimensões Suporte e Profundidade.

As características mencionadas que aproximam o participante de um amigo de turma foram agrupadas em três categorias: características de alegria e positivismo, características relacionais importantes na manutenção de relacionamentos mais verdadeiros e características relacionadas ao envolvimento com a faculdade. Foi valorizado o amigo carismático, simpático, divertido, extrovertido, companheiro, sincero, com afinidade, empático, comprometido e responsável (Tabela 4).

Tabela 4 – Descrição e agrupamento das características que aproximam o participante de um amigo de sua turma. Jundiaí, 2013.


Nota: o número de características é maior que a amostra pois os participantes relataram mais de uma característica.

As características mencionadas que afastam o participante de uma pessoa da turma também foram agrupadas em três categorias: características relacionais negativas que geram conflitos e atrapalham as relações, características relacionadas ao envolvimento com a faculdade e características relacionadas a aproximação e afinidade. Os participantes mantiveram-se afastados de pessoas julgadas como egoístas, arrogantes, irresponsáveis, descomprometidos e com quem eles não tinham afinidades (Tabela 5).

Tabela 5 – Descrição e agrupamento das características que afastam o participante de uma pessoa da sua turma. Jundiaí, 2013.


Nota: o número de características é maior que a amostra pois os participantes relataram mais de uma característica.

No questionário de coleta de dados, para citação das características que afastam ou aproximam o participante de uma pessoa da sua turma, foi deixado em aberto quatro espaços para cada uma das situações e os resultados obtidos mostraram uma maior facilidade do participante em relatar aspectos positivos e que o aproximam de um colega de turma em detrimento dos negativos e que os afastam.

Discussão

Para compreender a qualidade de um relacionamento interpessoal específico é importante conhecer o grau de satisfação dos indivíduos7. Uma pesquisa realizada com 116 universitários de Belo Horizonte e com 116 de Porto Alegre teve como objetivo analisar a relação entre as variáveis amizade e bem-estar subjetivo. Os participantes responderam aos Questionários McGill de Amizade, escalas PANAS e Escala de Satisfação de Vida. As mulheres mostraram mais satisfação e mais sentimentos positivos com a melhor amizade; a amostra mineira indicou mais sentimentos negativos; a satisfação com a amizade correlacionou positivamente com satisfação de vida e afetos positivos, mas não predisse satisfação de vida. Há uma relação próxima, mas não causal, entre bem-estar subjetivo e amizade9.

Amizade é, tão somente, a textura do “tecido relacional” de um tempo, em que pesem as capturas e as liberdades que nele se encontram. Nessa relação, os indivíduos vivem pelas suas diferenças, não são espelhos para os outros em uma identidade coletiva ou ideal. Não se deve buscar encontrar no amigo um reforço para sua identidade, mas, pelo contrário, material para transformação e criação de si. Por isso, entende-se amizade, em primeiro lugar, como o campo de relações em que as pessoas se constituem e se constroem10. Essa visão de amizade atribui a ela, um importante poder transformador e desafiante, principalmente por ela ocorrer entre pessoas com conceitos e experiências próprias.

As diferenças são mais facilmente amenizadas entre pessoas próximas. Pessoas conseguem relacionar-se melhor com outras quando a predominância e a ênfase estão baseadas na redução das diferenças, das percepções e na busca incessante do entendimento do outro. Como aconteceu no presente trabalho.

Instituições de ensino e ambiente de sala de aula tendem unir pessoas diferentes em torno de um objetivo comum, sendo relativamente normal nesse contexto o aparecimento de conflitos de diferentes origens, tipos e magnitudes. Conflitos interpessoais são os que causam mais alteração na dinâmica do ambiente, por causar tensão, instabilidade e, até, falta de cooperação entre os envolvidos11.

Diferenças como valores, crenças, atitudes, sexo, idade e experiências podem causar situações inevitáveis de conflito dentro dos relacionamentos. Conflito pode ser definido como um processo em que uma das partes envolvidas percebe que a outra parte frustrou ou irá frustrar seus interesses. Ele sempre irá existir, porque o ser humano é caracteristicamente dinâmico em relação às suas emoções. No entanto, conflitos também podem ser vistos como algo positivo, pois são fontes de novas ideias, podendo levar a discussões abertas sobre determinados assuntos, permitindo a expressão e exploração de diferentes pontos de vista, interesses e valores12.

O desempenho acadêmico pode ser um fator de conflito ou motivo de aproximação. Um estudo realizado com 848 adolescentes de diferentes escolas de Portugal levantou dados sobre o estilo de vida e dados sociodemográficos dos alunos. Os resultados mostraram que alunos sem dificuldades de aprendizagem relataram maior aceitação pelos pares, apresentaram mais habilidades assertivas e menos problemas de comportamento; além disso, alunos do sexo masculino relataram maior aceitação pelos pares e, maior tendência a apresentar dificuldades de aprendizagem do que no sexo feminino13.

Um estudo realizado com 826 alunos teve como objetivo investigar a existência de associação entre elementos atributivos comuns na literatura e o desempenho acadêmico de alunos da graduação em ciências contábeis de quatro universidades. Constatou-se que 68% dos alunos que consideram seu desempenho acadêmico superior o atribuem ao seu próprio esforço, enquanto menos de 10% o relacionam a causas externas. Daqueles que avaliaram seu desempenho acadêmico como inferior, quase 24% relacionam esse fracasso a causas externas (família, provas, colegas e professores)14. Sendo assim, um bom desempenho acadêmico foi mais atribuído a causas internas, em congruência ao encontrado no presente estudo em que os participantes não mostraram relações de dependência com os colegas de classe. Os relacionamentos interpessoais neste grupo foram entre pessoas com comportamento e desempenho acadêmico semelhantes. Uma pesquisa realizada com 207 alunos universitários, sendo

88 do curso de Administração (42,51%) e 119 de cursos da área da Saúde (57,49%), teve por objetivo identificar a existência ou não de relação entre a racionalidade das escolhas e o desempenho acadêmico dos discentes. Realizar escolhas racionais consiste em conferir o mesmo peso a cenários distintos, ou seja, avaliar uniformemente as probabilidades em situações de ganhos e perdas. O desempenho acadêmico apresentou relação direta com a racionalidade de escolhas. Os discentes com desempenho acadêmico superior realizaram escolhas mais racionais que os estudantes com desempenho acadêmico inferior, mostrando-se, dessa forma, menos susceptíveis à influência dos vieses cognitivos15. Mesmo não agindo de maneira totalmente racional, reconhecer a forma normativa da racionalidade e influenciar suas próprias ações, pode ser uma importante habilidade para se adaptar melhor a um contexto e ter menos conflitos interpessoais. Quando os participantes mencionaram características que o aproximaram ou o distanciaram de determinados colegas de classe, isso foi uma forma de racionalizar a escolha e demostrou clareza em relação a aspectos positivos e negativos que podem influenciar no bem-estar dos relacionamentos.

O bem-estar interpessoal no ambiente de sala de aula pode ser considerado um desafio do ensino superior, pois dele depende a motivação do aluno para cumprir suas obrigações acadêmicas de forma adequada, prazerosa e cooperativa.

Cabe aos educadores universitários tomarem consciência da complexa relação entre indivíduo (com seus desejos, angústias e ideais), educação (conteúdo científico e acadêmico), sociedade (com seus problemas e desafios)16, bem como, comunicação e relacionamento interpessoal dentro dos grupos.

A educação tem um papel fundamental que não pode ser negligenciado: ajudar o indivíduo a compreender o mundo e o outro, a fim de que cada um compreenda melhor a si mesmo. O indivíduo define-se em relação ao outro, aos outros e aos vários grupos a que pertence segundo modalidades dinâmicas. A descoberta da multiplicidade dessas relações leva à busca de valores comuns e maior aceitação das diferenças17.

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados obtidos, a percepção do próprio desempenho acadêmico e dos outros alunos de graduação em enfermagem parece interferir diretamente na escolha das amizades na sala de aula, pois a aproximação muitas vezes se dá pela semelhança; entretanto, o desempenho acadêmico não apareceu como um fator primordial na qualidade dos relacionamentos interpessoais.

Apesar da maioria dos alunos avaliarem como bom tanto seu próprio desempenho acadêmico quanto o do seu melhor amigo, na avaliação do desempenho acadêmico das pessoas com me nos proximidade, a resposta foi mais variada. Metade dos participantes avaliaram as pessoas com menos proximidade da sala de aula com bom desempenho, seguido respectivamente pelas avaliações razoável, ótimo e ruim.

Os alunos apresentaram boa qualidade nos relacionamentos interpessoais com o colega de sala em relação ao Suporte, Conflito e Profundidade nas relações. Foi valorizado o amigo carismático, simpático, divertido, extrovertido, companheiro, sincero, com afinidade, empático, comprometido e responsável.

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