ARTIGO ORIGINAL

 

INDICADORES NA ASSIST�NCIA CIR�RGICA DE UM HOSPITAL UNIVERSIT�RIO: O QUE PENSAM OS GESTORES?

 

INDICATORS IN SURGICAL CARE AT A UNIVERSITY HOSPITAL: WHAT DO MANAGERS THINK?

 

INDICADORES EN LA ATENCI�N QUIR�RGICA EN UN HOSPITAL UNIVERSITARIO: �QU� PIENSAN LOS DIRECTIVOS?

 

https://doi.org/10.31011/reaid-2024-v.98-n.1-art.2080

 


1Lizandra Flores Chourabi

2Vin�cius Rodrigues de Souza

3Luciana Gomes da Silva

4Sarah Menezes Costa

5Alexm�lia Fiorini da Costa Balonecker

6Silvia Helena da Silva Figueira

7Evany Pereira Matias

8Dayse Kelly Lopes Lima

 

1,2,3,4,5,6,7,8Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

1Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1754-7403

2Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8035-3647

3Orcid: https://orcid.org/0009-0002-9669-5697

4Orcid: https://orcid.org/0009-0007-2735-4449

5Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3758-3513

6Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7179-4299

7Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4088-3162

8Orcid: https://orcid.org/0009-0009-8441-1846

 

Autor correspondente

Lizandra Flores Chourabi

Rua S�o Francisco Xavier, 989. CEP: 20550-011. Telefone: +55(55)99142-9743 Email: lizandra.chourabi@unirio.br

 

Submiss�o: 18-11-2023

Aprovado: 27-01-2024

 

RESUMO

Introdu��o: Os indicadores s�o ferramentas essenciais em diversas �reas, incluindo a sa�de e a gest�o de servi�os de atendimento. A utiliza��o de indicadores no centro cir�rgico � primordial, por ser considerado um setor extremamente complexo que abrange o trabalho de equipes multiprofissionais que necessitam estar em sintonia em rela��o aos in�meros processos e sub processos que s�o exigidos na produ��o de cirurgias. Objetivo: Compreender as percep��es dos gestores acerca da utiliza��o de indicadores na assist�ncia cir�rgica em um hospital universit�rio. M�todos: Estudo descritivo e explorat�rio, de abordagem qualitativa, utilizando entrevistas individuais semiestruturadas aplicadas � 5 gestores do centro cir�rgico de um hospital universit�rio. Os dados coletados no per�odo de agosto e setembro de 2023 foram analisados e submetidos � an�lise tem�tica de Minayo. Resultados: Dos resultados, emergiram tr�s categorias para a discuss�o: percep��o de gestores sobre o uso de indicadores para avalia��o do processo cir�rgico; a fragilidade da educa��o permanente no uso dos indicadores e a suspens�o de cirurgias como indicador de qualidade da assist�ncia cir�rgica. Conclus�o: A an�lise demonstra que os gestores entendem a import�ncia dos sistemas de indicadores no centro cir�rgico e sua rela��o direta com o cuidado do paciente, a necessidade de capacita��o para a utiliza��o dos indicadores e a falta de sua implementa��o relacionada com a suspens�o de cirurgias, acarretada pela falta de gerenciamento de recursos materiais.

Paqlavras-chave: Indicadores de Qualidade em Assist�ncia � Sa�de; Gest�o da qualidade total; Centro Cir�rgico; Seguran�a do Paciente.

 

ABSTRACT

Introduction: Indicators are essential tools in several areas, including health and the management of care services. The use of indicators in the surgical center is essential, as it is considered an extremely complex sector that encompasses the work of multidisciplinary teams that need to be in tune with the countless processes and sub-processes that are required in the production of surgeries. Objective: To understand managers' perceptions regarding the use of indicators in surgical care in a university hospital. Methods: Descriptive and exploratory study, with a qualitative approach, using individual semi-structured interviews applied to 5 managers of the surgical center of a university hospital. The data collected in the period of August and September 2023 were analyzed and subjected to Minayo's thematic analysis. Results: From the results, three categories emerged for discussion: managers' perception of the use of indicators to evaluate the surgical process; the fragility of continuing education in the use of indicators and the suspension of surgeries as an indicator of the quality of surgical care. Conclusion: The analysis demonstrates that managers understand the importance of indicator systems in the surgical center and their direct relationship with patient care, the need for training in the use of indicators and the lack of their implementation related to the suspension of surgeries, caused by the lack of management of material resources.

Keywords: Quality Indicators, Health Care; Total Quality Management; Surgicenters; Patient Safety.

 

RESUMEN

Introducci�n: Los indicadores son herramientas esenciales en varias �reas, incluida la salud y la gesti�n de los servicios de atenci�n. El uso de indicadores en el centro quir�rgico es fundamental, ya que se considera un sector sumamente complejo que abarca el trabajo de equipos multidisciplinarios que necesitan estar en sinton�a con los innumerables procesos y subprocesos que se requieren en la producci�n de las cirug�as. Objetivo: comprender las percepciones de los directivos sobre el uso de indicadores en la atenci�n quir�rgica en un hospital universitario. M�todos: Estudio descriptivo y exploratorio, con enfoque cualitativo, mediante entrevistas individuales semiestructuradas aplicadas a 5 directivos del centro quir�rgico de un hospital universitario. Los datos recopilados en el per�odo de agosto y septiembre de 2023 fueron analizados y sometidos al an�lisis tem�tico de Minayo. Resultados: De los resultados surgieron tres categor�as para discusi�n: percepci�n de los gestores sobre el uso de indicadores para evaluar el proceso quir�rgico; la fragilidad de la educaci�n continua en el uso de indicadores y la suspensi�n de cirug�as como indicador de la calidad de la atenci�n quir�rgica. Conclusi�n: El an�lisis demuestra que los directivos comprenden la importancia de los sistemas de indicadores en el centro quir�rgico y su relaci�n directa con la atenci�n al paciente, la necesidad de capacitaci�n en el uso de indicadores y la falta de su implementaci�n relacionada con la suspensi�n de cirug�as, provocada por la Falta de gesti�n de los recursos materiales.

Palabras clave: Indicadores de Calidad de la Atenci�n de Salud; Gesti�n de la Calidad Total; Centros Quir�rgicos; Seguridad del Paciente.

 


INTRODU��O

O centro cir�rgico (CC) � uma das unidades mais importantes da pir�mide hier�rquica do sistema hospitalar. Apesar de ser destinado apenas aos procedimentos cir�rgicos e � recupera��o anest�sica, o funcionamento desse setor impacta diretamente todos os outros setores. O CC � um sistema sociot�cnico, estruturado por cinco subsistemas: metas e valores; tecnol�gico; estrutural; psicossocial; e administrativo(1). Dessa forma, e diante de um contexto de globaliza��o e de aumento da demanda por produtividade, a qualidade da assist�ncia prestada dentro desse setor se torna fundamental, sendo assim objeto de intenso monitoramento e discuss�o.

No entanto, a busca pela qualidade na �rea da sa�de requer um esfor�o conjunto de todos os envolvidos, principalmente dos gestores que precisam estar capacitados, entendendo que qualidade n�o deve ser vista apenas como um aspecto t�cnico, mas tamb�m como um componente social e humano essencial(2).

A melhoria da qualidade assistencial no CC � um processo cont�nuo que exige um compromisso com a avalia��o constante, identifica��o de problemas e implementa��o de a��es corretivas. Esse esfor�o n�o apenas beneficia os pacientes, garantindo cuidados de alta qualidade, mas tamb�m contribui para o desenvolvimento da pr�tica cir�rgica e para o aprimoramento do sistema de sa�de como um todo(3). Desse modo, os gestores precisam analisar os resultados da assist�ncia atrav�s de indicadores.

Os indicadores s�o ferramentas essenciais em diversas �reas, incluindo a sa�de e a gest�o de servi�os de atendimento. Eles desempenham um papel fundamental na coleta, an�lise e mensura��o de informa��es e tomada de decis�es. Esses indicadores permitem avaliar vari�veis ou dados relevantes para uma determinada situa��o, o que � particularmente importante na �rea da sa�de, onde a precis�o das informa��es � crucial tanto para a tomada de decis�es cl�nicas quanto para a formula��o de pol�ticas p�blicas(4).

No contexto da gest�o dos servi�os de sa�de, os indicadores s�o fundamentais para monitorar a qualidade da assist�ncia prestada e fundamentar decis�es baseadas em dados. No entanto, � verdade que no Brasil, como em muitos outros pa�ses, ainda existem desafios em rela��o aos indicadores que representam a qualidade da assist�ncia em institui��es hospitalares. Os manuais do Programa "Compromisso com a Qualidade Hospitalar" (CQH) s�o, de fato, importantes refer�ncias para o desenvolvimento de indicadores de qualidade na �rea da enfermagem e na gest�o hospitalar em geral no Brasil. O CQH � um programa que busca promover a melhoria cont�nua da qualidade dos servi�os de sa�de, com foco em hospitais e institui��es de sa�de(5).

A utiliza��o de indicadores no CC � primordial, uma vez que esse setor � extremamente complexo, abrangendo o trabalho de equipes multiprofissionais que necessitam estar em sintonia em rela��o aos in�meros processos e sub processos exigidos na produ��o de cirurgias. Al�m do mais, o CC n�o funciona de forma isolada; h� v�rios setores envolvidos em um procedimento cir�rgico, tais como o suprimento de materiais, central de esteriliza��o de material, laborat�rio, n�cleo de regula��o interna de leitos, centro de terapia intensiva. Dessa maneira, a qualidade da assist�ncia prestada no CC pode ser afetada se n�o houver uma interlocu��o e uma comunica��o eficaz entre os setores. Nesse sentido, o uso de indicadores de qualidade se torna crucial, pois norteiam as a��es de todos os envolvidos (6).

O desenvolvimento desta investiga��o justifica-se pela necessidade de compreender a percep��o dos gestores sobre a rela��o dos indicadores dos processos cir�rgicos com a qualidade em sa�de. Sabe-se da not�ria import�ncia da padroniza��o dos indicadores dentro dos centros cir�rgicos, bem como do seu uso para o monitoramento da qualidade da assist�ncia. Embora existam diversos indicadores propostos, cada gestor faz a adequa��o do uso de acordo com as necessidades e especificidades de sua realidade.

Nesse sentido, a pergunta que norteou o estudo foi: Qual a percep��o dos gestores sobre o uso dos indicadores na pr�tica cir�rgica? O objetivo do estudo foi compreender as percep��es dos gestores acerca da utiliza��o de indicadores na assist�ncia cir�rgica em um hospital universit�rio.

Espera-se�� que�� a�� presente pesquisa contribua com a melhoria da assist�ncia cir�rgica multiprofissional e transdisciplinar, gerando resultados que possam proporcionar facilidades no cuidado e na efici�ncia dos processos cir�rgicos. Al�m disso, busca-se promover o enriquecimento das publica��es na �rea de gest�o cir�rgica.

 

M�TODOS

Trata-se de uma pesquisa descritiva e explorat�ria com abordagem qualitativa. Utilizou-se como cen�rio, o centro cir�rgico de um hospital universit�rio localizado no Rio de Janeiro que possui cinco salas cir�rgicas e realiza cirurgias de pequeno, m�dio e grande porte de diversas especialidades.

Como instrumento de coleta de dados, elaborou-se um question�rio estruturado com oito perguntas: 1. Qual a sua forma��o profissional em n�vel de gradua��o e p�s-gradua��o? 2. Qual o tempo que ocupa na fun��o de gestor? 3. Qual a sua percep��o quanto a utiliza��o de indicadores e sistemas de gest�o relativos ao processo cir�rgico? 4. Qual o sistema ou software de gest�o utilizado para avalia��o do processo cir�rgico? 5. Voc� acha que este sistema est� adequado e completo para detec��o dos processos cir�rgicos? Se n�o, o que voc� sugere para adequar? 6. Ocorre a realiza��o de benchmarking com outros estabelecimentos. H� um processo estruturado para a realiza��o dessa compara��o (benchmarking)? 7. Existe algum setor do hospital que fornece periodicamente indicadores sobre os processos cir�rgicos? 8. O que voc� acha que poderia ser feito para reduzir os n�meros de cirurgias suspensas?

As entrevistas aconteceram entre os meses de agosto e setembro de 2023, por oito semanas consecutivas, durante os plant�es diurnos das equipes. �Os participantes foram cinco gestores de um hospital universit�rio que realizam atividades gerenciais no ambiente cir�rgico da institui��o. Esses gestores foram escolhidos de forma intencional mediante os seguintes crit�rios de inclus�o: estar atuando na gest�o cir�rgica h� mais de um ano e estar presente no hospital ao longo do per�odo de coleta de dados. A coleta de dados foi finalizada com a satura��o dos dados quando n�o se identificam novas informa��es significativas nas entrevistas.

Os depoimentos foram gravados com o consentimento dos participantes e posteriormente transcritos na �ntegra. Em seguida, eles foram estruturados em categorias e analisados qualitativamente por meio da an�lise tem�tica de Minayo. Para tanto, cumpriu-se as tr�s etapas propostas pela referida autora: pr�-an�lise, explora��o do material e tratamento dos resultados obtidos e interpreta��o e posteriormente o processo de categoriza��o(7).

A presente pesquisa foi aprovada pelo Comit� de �tica em Pesquisa (CEP) do Hospital Universit�rio Gaffr�e e Guinle- HUGG, na qual faz parte do projeto de pesquisa: �Atua��o multidisciplinar em centro cir�rgico tens�es na l�mina do bisturi� sob n� CAAE: 47949721.3.0000.5258. Aos participantes do estudo, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, somente ap�s a entrega de uma via devidamente assinada com a anu�ncia do entrevistado, iniciou-se a coleta de dados.

 

RESULTADOS

Caracteriza��o dos participantes

� A amostra foi composta por cinco gestores. Em rela��o a gradua��o, quatro deles cursaram medicina e um cursou direito e administra��o. No que diz respeito � p�s-gradua��o, observou-se que os gestores cursaram as seguintes especialidades: neurologia, ginecologia, cirurgia geral, endoscopia cir�rgica e Mestrado em Sa�de e Tecnologia no Espa�o Hospitalar. Quanto �s experi�ncias na �rea de gest�o, os participantes possuem entre 1 e 7 anos no cargo de chefia.

A fim de garantir a confidencialidade, os participantes foram identificados por um conjunto de letra e n�mero e categorizados como: G1, G2, G3, G4 e G5.

 

Processo gerencial em centro cir�rgico

Por meio da an�lise tem�tica das entrevistas, foram identificadas tr�s categorias principais no processo gerencial de indicadores no Centro Cir�rgico, conforme ser� apresentado a seguir: 1 -Percep��o de gestores sobre o uso de indicadores para avalia��o do processo cir�rgico; 2- A fragilidade da educa��o permanente no uso dos indicadores; e 3 - A suspens�o de cirurgias como indicador de qualidade da assist�ncia cir�rgica.

Categoria 1: Percep��o de gestores sobre o uso de indicadores para avalia��o do processo cir�rgico

Os gestores entrevistados relatam que os indicadores s�o uma ferramenta fundamental para avaliar o desempenho dos processos cir�rgicos. Segue a fala dos entrevistados:

De uns tempos para c� a gente come�ou, no hospital como um todo, a buscar, a correr atr�s de indicadores cir�rgicos. Eu acho que era uma coisa que n�o ligava, ningu�m prestava aten��o (G1).

Sim, eu noto que, aqui no hospital, cada vez mais se utiliza os indicadores, das mais variadas vertentes para se tentar dar o norte e analisar o que aconteceu, e o que est� acontecendo no centro cir�rgico (G2)

Necess�rio para melhoria do processo como um todo, al�m de auxiliar os gestores na fun��o de gerir o ambiente cir�rgico (G5).

De maneira geral, os gestores acreditam que os indicadores fornecem dados objetivos que podem ajudar a identificar �reas de excel�ncia e oportunidades de melhoria na gest�o do centro cir�rgico.

Categoria 2: A fragilidade da educa��o permanente no uso dos indicadores

Os gestores relatam dificuldade em implementar indicadores de qualidade para a assist�ncia cir�rgica. Eles referem que tal fato � reflexo de um baixo incentivo � educa��o permanente e continuada, n�o promovendo treinamentos cont�nuos dos gestores em rela��o � import�ncia e uso eficaz dos indicadores, conforme pode ser observado nos relatos a seguir:

Eu confesso que n�o... n�o tenho a experi�ncia de fazer o indicador (G2).

Na realidade, a avalia��o (dos indicadores) � muito prec�ria, n�? Eu acho que a avalia��o deveria ser a base de reuni�es (G4).

A gente est� caminhando tamb�m para usar o AGHU, mas o m�dulo n�o foi implantado ainda, nem em exames, nem o m�dulo bloco cir�rgico (G1).

 

As falas dos entrevistados mostram ainda que os sistemas de informa��o, como prontu�rios eletr�nicos, n�o s�o eficazes para coleta e an�lise de dados, nem tampouco traduzem informa��es relacionadas � assist�ncia cir�rgica. A falta de dados confi�veis pode dificultar a avalia��o da qualidade.

Ent�o, na dire��o tem, por exemplo, o [...], n�? Ele faz essa quest�o das cirurgias (G3).

Os indicadores que a gente tem de cirurgia, eles s�o disponibilizados pelo pr�prio sistema (G5).

Sobre o processo cir�rgico, eu desconhe�o do setor do hospital que forne�a os indicadores (G1).

Se tem, a gente n�o recebe os indicadores (G4).

 

Para abordar esses desafios, � importante que os gestores e �rg�o reguladores trabalhem juntos na discuss�o e implementa��o de estrat�gias que otimizem a coleta e an�lise dos dados, os quais podem gerar indicadores de qualidade para a assist�ncia cir�rgica. Isso exige uma abordagem hol�stica, perpassando por eixos interdependentes como assist�ncia, ensino, pesquisa e gest�o, priorizando uma adapta��o aos contextos espec�ficos da institui��o e um compromisso com a cultura de qualidade e melhoria cont�nua.

Categoria 3: A suspens�o de cirurgias como indicador de qualidade da assist�ncia cir�rgica.

A percep��o dos gestores entrevistados em rela��o aos motivos das suspens�es de cirurgias est� relacionada a m� qualidade da assist�ncia cir�rgica. As pol�ticas internas, as pr�ticas de gest�o e as circunst�ncias espec�ficas de falta de materiais, foram identificadas, conforme os depoentes:

Eu acho que um outro motivo (para suspens�o de cirurgias) pode ser a falta de material e infraestrutura do hospital, n�? Tipo, ah, n�o tenho a tela, n�o tenho, enfim, a pr�tese, n�? E um outro momento pode ser at� a falta da infraestrutura inteira do hospital (G1)

A gente tem uma quest�o, � as vezes, cr�nica do SUS, � de din�mica de funcionamento de materiais. Porque, �s vezes, a gente est� contando com um material, e a�, chega aqui na hora, e, na verdade, n�o tinha (G2).

Ent�o, hoje, por exemplo, voc� � surpreendido com a falta de campo, n�? Isso da� aconteceu de ontem para hoje? Provavelmente n�o, n�? Ent�o, voc� j� deveria ter sido avisado (G4).

A quest�o do material, antes de marcar a cirurgia no sistema, tem que haver um alinhamento com o centro cir�rgico para verificar a quest�o dos materiais (G5).

 

Os gestores percebem que a indisponibilidade dos recursos materiais compromete a capacidade de realizar procedimentos cir�rgicos de maneira segura e eficaz. A disponibilidade de recursos essenciais, como os equipamentos m�dicos, materiais cir�rgicos, medicamentos, � uma causa importante de suspens�o de cirurgias.

 

DISCUSS�O

Os indicadores de avalia��o da qualidade dos servi�os de sa�de s�o divididos em tr�s categorias: indicadores de estrutura, processo e resultados. Os indicadores de estrutura envolvem os recursos humanos, financeiros e materiais. Os indicadores de processo constituem os objetivos realizados em prol do paciente, sendo categorizados em processos-meio, como prepara��o da sala cir�rgica, e processos-final�stico, como a cirurgia em si. Os processos geram produtos e servi�os, e estes s�o denominados resultados. A principal dificuldade apontada e percebida pelos gestores est� na categoria de indicadores de estrutura(8).

A percep��o dos entrevistados de que o gerenciamento inadequado de insumos pode comprometer a qualidade dos cuidados, reflete a compreens�o de que a disponibilidade e a qualidade dos materiais e suprimentos s�o fundamentais para a realiza��o de cirurgias seguras e eficazes. A falta de materiais adequados pode resultar em atrasos ou adiamentos de cirurgias, o que n�o � apenas frustrante para os pacientes, mas tamb�m pode acarretar consequ�ncias para a sa�de(9).

A dificuldade em implementar uma cultura de qualidade voltada para os indicadores est� intrinsecamente ligada � falta de conhecimento e experi�ncia dos profissionais acerca do assunto, como apontado pelos gestores entrevistados nesse estudo.

Com o avan�o da tecnologia e inform�tica, novos sistemas hospitalares foram desenvolvidos, permitindo que as informa��es e os dados possam ser organizados e usados para construir indicadores. Esses indicadores, por sua vez, possibilitam aos gestores do centro cir�rgico, uma r�pida identifica��o dos problemas e consequentemente a possibilidade de implementar medidas adequadas(10). Ou seja, a tecnologia deve ser usada a favor da gest�o.

� importante que os profissionais sejam capacitados e treinados constantemente, assim tamb�m poder�o identificar e notificar os problemas, contribuindo para a constru��o de uma assist�ncia de qualidade e resultando em recursos humanos de melhor qualidade e indicadores de estrutura positivos. Para isso, a administra��o hospitalar precisa entender a import�ncia de investir em recursos adequados, processos eficientes e capacita��o da equipe. Dessa forma, a administra��o pode tomar decis�es informadas para melhorar a qualidade de seguran�a do paciente(11).

�O processo de trabalho neste cen�rio tem caracter�sticas diferentes de outras unidades, pois, os profissionais de sa�de que atuam no centro cir�rgico dividem responsabilidades conforme sua especialidade. Sendo assim, � essencial o comprometimento total e incondicional dos trabalhadores para garantir a qualidade em sa�de(12).

Nota-se, de forma positiva, que os gestores entendem a import�ncia dos indicadores e t�m buscado cada vez mais integrar seu uso no sistema hospitalar. A utiliza��o de indicadores de sa�de possibilita a cria��o de padr�es, al�m do acompanhamento de sua evolu��o ao longo do tempo. Mesmo que um �nico indicador isolado n�o permita o conhecimento da complexidade da realidade do setor, a associa��o e a compara��o entre diferentes indicadores distintos facilitam a sua compreens�o(12).

Todas as falhas de estrutura e processo identificadas geram como produto a suspens�o dos procedimentos cir�rgicos. A suspens�o de cirurgias deve ser evitada, pois gera danos ao paciente e preju�zos � institui��o. No entanto, como n�o h� um processo claro e indicadores definidos, torna-se desafiador avaliar o impacto real das suspens�es na qualidade da assist�ncia prestada pelo hospital(13).

Considerando esse cen�rio, muitas institui��es e protocolos calculam a taxa de suspens�o de cirurgias, que � a rela��o percentual entre o total de cirurgias suspensas em um per�odo de tempo e a quantidade de cirurgias agendadas nesse mesmo per�odo. A taxa de suspens�o de cirurgias � um indicador valioso que ajuda a medir o desempenho e a qualidade da assist�ncia hospitalar. A sua utiliza��o permite a identifica��o de �reas de melhoria e contribui para a tomada de decis�es baseadas em dados para melhorar a experi�ncia do paciente e a efici�ncia operacional do hospital (14).

A comunica��o regular da taxa de suspens�o de cirurgias demonstra transpar�ncia por parte da administra��o hospitalar. Al�m disso, essa pr�tica cria responsabilidade tanto internamente, incentivando a equipe a trabalhar para reduzir as suspens�es, quanto externamente, fornecendo informa��es aos pacientes e � comunidade(13).

 

CONSIDERA��ES FINAIS

A realiza��o deste estudo permitiu verificar como os gestores utilizam os indicadores no CC. Foi poss�vel identificar uma defici�ncia na qualidade da assist�ncia evidenciada pela aus�ncia de indicadores de desempenho que transpare�am a realidade. A falta de clareza nos processos proporciona abertura para falhas na estrutura, para a falta de interesse na sistematiza��o e padroniza��o, al�m do desconhecimento das consequ�ncias acarretadas.

A padroniza��o de processos, a cria��o de protocolos e o treinamento dos profissionais s�o medidas que podem melhorar a qualidade da assist�ncia e o uso de indicadores. Essas iniciativas ajudam a garantir que todos na institui��o estejam alinhados com as pr�ticas recomendadas e os objetivos de qualidade.

A import�ncia dos indicadores na avalia��o de desempenho e da qualidade da assist�ncia � ineg�vel. Por isso, � necess�rio que haja uma integra��o entre a assist�ncia e a gest�o para a cria��o de a��es que implementem os indicadores, melhorem a estrutura, capacitem os profissionais e, por fim, reduzam o n�mero de cirurgias suspensas. Logo, todo o sistema deve ser conscientizado da import�ncia dos indicadores e do seu monitoramento.

Ainda h� muito o que se estudar acerca do assunto, principalmente se for levado em conta as particularidades da institui��o que suspende cirurgias por falta de materiais. O cancelamento de cirurgias devido � falta de materiais � um problema s�rio que afeta tanto a qualidade da assist�ncia quanto a efici�ncia operacional. A gest�o adequada de estoque, comunica��o eficaz e a��es corretivas s�o necess�rias para evitar esse tipo de situa��o e garantir que os pacientes recebam o tratamento de que precisam de forma oportuna e segura.

Os gestores devem adaptar os indicadores � sua realidade, padronizando o que realmente far� a diferen�a dentro da institui��o. O desejo pela implementa��o da cultura de qualidade � um grande aliado para o in�cio de um projeto de qualifica��o da assist�ncia. De tal forma, a institui��o deve priorizar a cria��o de protocolos e treinamentos para dar o passo inicial no uso dos indicadores, investindo no aprimoramento dos profissionais e na gest�o da ferramenta.

A limita��o deste estudo, conforme apontado, � que ele foi conduzido em uma �nica institui��o com participantes que ocupavam posi��es hier�rquicas semelhantes. Para superar essa restri��o s�o sugeridas pesquisas explorat�rias adicionais para aprofundar a compreens�o do fen�meno. Esses estudos podem ajudar a identificar novos insights, tend�ncias ou fatores contextuais que podem n�o ter sido considerados no estudo original.

 

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Fomento: Declaramos que esta pesquisa n�o recebeu financiamento.

Crit�rios de autoria (contribui��es dos autores)

Lizandra Flores Chourabi - contribuiu substancialmente na concep��o e/ou no planejamento do estudo, na obten��o, na an�lise e/ou interpreta��o dos dados, assim como na reda��o e/ou revis�o cr�tica e aprova��o final da vers�o publicada

Vin�cius Rodrigues de Souza - contribuiu substancialmente na reda��o e/ou revis�o cr�tica e aprova��o final da vers�o publicada

Luciana Gomes da Silva - contribuiu substancialmente na concep��o e/ou no planejamento do estudo, na obten��o, na an�lise e/ou interpreta��o dos dados.

Sarah Menezes Costa - contribuiu substancialmente na concep��o e/ou no planejamento do estudo, na obten��o, na an�lise e/ou interpreta��o dos dados assim como na reda��o.

Alexm�lia Fiorini da Costa Balonecker - contribui substancialmente na reda��o e/ou revis�o cr�tica.

Silvia Helena da Silva Figueira- contribuiu substancialmente na reda��o e/ou revis�o cr�tica

Evany Pereira Matias - contribuiu substancialmente na reda��o e/ou revis�o cr�tica

Dayse Kelly Lopes Lima - contribuiu substancialmente na reda��o e/ou revis�o cr�tica.

Declara��o de conflito de interesses: Nada a declarar.

 

 

Rev Enferm Atual In Derme 2024;98(1): e024263